09-07-2020 | Latest News , Africa , Asia & Pacific , Middle East , Europe & Central Asia , The Americas , Health Care in Danger

Relatório do CICV: mudança climática e conflito armado são uma combinação cruel que espreita as pessoas mais vulneráveis do mundo

Genebra (CICV) – Os países afetados por conflitos também sofrem um impacto desproporcional da mudança climática – uma dupla ameaça que obriga as pessoas a fugir de casa, prejudica a produção de alimentos,  interrompe os canais de fornecimento, agrava surtos de doenças e debilita os serviços de assistência à saúde, disse hoje o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em novo relatório.

O documento, intitulado Quando a chuva se transforma em poeira, baseia-se em pesquisas realizadas no sul do Iraque, no norte de Mali e no interior da República Centro-Africana. Descreve as experiências das pessoas com os riscos climáticos e os conflitos armados, mostrando suas maneiras de lidar e se adaptar. Também revela como, na ausência de um apoio adequado, elas podem ser obrigadas a mudar drasticamente seu modo de vida, diversificar seus meios de subsistência ou fugir de suas casas. 

Dos 20 países mais vulneráveis à mudança climática, a maioria está em guerra[1]. Até 2050, 200 milhões de pessoas poderiam necessitar de ajuda humanitária internacional por ano, o dobro da cifra atual. 

“A mudança climática é cruel. Embora seja sentida em todas as partes, seus efeitos são mais prejudiciais nos lugares mais vulneráveis do mundo. Presenciamos todos os dias o impacto dos choques climáticos e da degradação ambiental sobre comunidades afetadas por conflitos. Sua capacidade de se adaptar diminui radicalmente em função da violência e da instabilidade. Esses choques custam vidas”, afirmou Catherine-Lune Grayson, especialista do CICV em mudança climática.

Alguns exemplos de experiências das pessoas que vivem na República Centro-Africana, Iraque e Mali:

  • Em lugares como Mali e Iraque, as pessoas deixaram claro que os fatores ambientais e climáticos dificultam suas vidas ao ameaçar seu acesso a água e alimentos e sua segurança econômica, além de afetar seu sentido de dignidade, enquanto elas se esforçam para satisfazer as necessidades de suas famílias.
  • Na República Centro-Africana, as pessoas falaram das tensões entre agricultores e pastores devido às mudanças nos padrões de movimento humano e à limitada capacidade das autoridades de regulá-los. Pediram ajuda para lidar com as tensões e apoio para mapear as mudanças nos calendários agrícolas, pois elas não podem mais prever o tempo e os tradicionais calendários de colheitas já não são confiáveis.
  • No norte de Mali, pastores e agricultores descreveram como o conflito alterou suas formas de lidar com as repetidas secas e as intensas chuvas ocasionais. E como isto acelerou mudanças em seu modo de vida, obrigando alguns a mudar para o sul do país ou para as cidades.
  • No norte do Mali e na República Centro-Africana, as pessoas perderam casas, meios de subsistência e colheitas por causa das inundações. Agora, pedem ajuda para se recuperar e garantir que as próximas enchentes não as deixem desabrigadas de novo.
  • No Iraque, as tempestades de areia ocorreram menos de 25 vezes por ano entre 1950 e 1990. Em 2013, foram cerca de 30. Um funcionário do CICV no Iraque refletiu: ‘Antes, caía chuva. Agora, cai poeira.’

 

“A mudança climática não mitigada causará um aumento exponencial do número de pessoas necessitadas, e as organizações humanitárias já não podem satisfazer as necessidades. Os riscos climáticos podem levar a retrocessos no desenvolvimento e ao colapso sistêmico, sobretudo em estados frágeis e afetados por conflitos, que são atualmente os mais negligenciados pela ação climática”, disse Grayson.

O CICV faz um apelo à mobilização dentro e fora do setor humanitário, para que a ação climática e os recursos financeiros cheguem às zonas de conflito e garantam que as comunidades mais atingidas recebam o apoio necessário para se adaptarem à mudança climática.

[1] O ND-Gain Index (Índice de Adaptação Global da Universidade de Notre Dame) indica a vulnerabilidade de um país à mudança climática e a outros desafios globais em combinação com sua preparação para melhorar a resiliência.  

 

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